Mudanças de Bolsonaro sinalizam ‘degradação das relações entre civis e militares’ no governo
05/04/2021 09:20 em Política

Para analista, Bolsonaro se afasta dos oficiais militares institucionalistas e se aproxima de grupo antirrepublicano militar

São Paulo – As trocas promovidas por Jair Bolsonaro envolvendo militares no decorrer da semana, no Ministério da Defesa e nos comandos de Exército, Marinha e Aeronáutica, evidenciam uma frágil separação entre as Forças Armadas, como instituição, e integrantes do governo. Para a professora do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Anaís Medeiros Passos, o “risco de quebra de hierarquia e de disciplina é real”.

“O general Braga Netto faz parte do grupo antirrepublicano militar próximo ao presidente (junto com o general Augusto Heleno): colocá-lo no Ministério da Defesa é uma forma de politizar a pasta da Defesa – como demonstra a sua declaração celebrando o golpe militar de 1964”, aponta. “A reforma ministerial anunciada no dia 30 de março afasta Bolsonaro dos oficiais militares institucionalistas – embora não tenhamos dados sobre a proporção dessa atitude democrática entre os membros das Forças Armadas.”

No entanto, Anaís acredita que as mudanças promovidas por Bolsonaro são mais um sinal de fragilidade do que o contrário. “Presidentes fracos e autoritários apoiam-se nas Forças Armadas para se legitimar no poder. É o que o chefe do Executivo está fazendo. Não considero que o comando das Forças Armadas apoie um eventual golpe de estado. Para o desapontamento de Bolsonaro e de seus ministros militares nostálgicos do regime militar”, pontua.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à 
RBA, ela também fala a respeito das mudanças promovidas no Ministério da Defesa, inicialmente criado para simbolizar o exercício da autoridade civil, desde o governo Temer, quando pela primeira vez um militar assumiu o cargo. E também aborda a necessidade de regras para a participação de militares da ativa na política. “É crucial que militares, classe política e sociedade civil compartilhem um consenso mínimo sobre os valores democráticos.”

Confira a entrevista

De que forma você avalia a troca de ministros da Defesa e também a saída dos três comandantes das Forças Armadas no governo? O que isso pode significar na relação entre o presidente e os militares? 

A demissão do ministro da Defesa, seguida da renúncia dos três comandantes militares, é sintomática da degradação das relações entre civis e militares no atual governo. O presidente quer utilizar as Forças Armadas como um instrumento de governo. O chefe do Executivo está insatisfeito pelo apoio político que tem tido, em especial do Exército, sobre o seu posicionamento em relação à crise da covid-19. Em muitos momentos da pandemia, ficou claro que o comandante do Exército e Bolsonaro defendiam posições opostas. Enquanto o primeiro afirmou que a pandemia da covid-19 era a “principal missão da sua geração”, o presidente comparou a doença a uma “gripezinha” e se opôs a medidas mais restritivas para frear a circulação do vírus nos estados e municípios mais atingidos.

Essa troca no Ministério da Defesa também demonstra o que muitos analistas de relações civis-militares vêm alertando: a separação entre a instituição Forças Armadas e os indivíduos que participam do governo é frágil e está se deteriorando com o tempo. O risco de quebra de hierarquia e de disciplina é real. O general Braga Netto faz parte do grupo antirrepublicano militar próximo ao presidente (junto com o general Augusto Heleno): colocá-lo no Ministério da Defesa é uma forma de politizar a pasta da Defesa – como demonstra a sua declaração celebrando o golpe militar de 1964.

Ao mesmo tempo, há resistência dentro das Forças Armadas em assumir um papel abertamente político. A sucessão no comando do Exército, da Marinha e da Aeronáutica obedece a critérios de senioridade dentro da instituição. A reforma ministerial anunciada no dia 30 de março afasta Bolsonaro dos oficiais militares institucionalistas – embora não tenhamos dados sobre a proporção dessa atitude democrática entre os membros das Forças Armadas.

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