Há um ano, Vaza Jato revelava conluio da Lava Jato para tirar Lula da eleição
09/06/2020 21:56 em Política

Pelo “serviço”, Moro virou “superministro” de Bolsonaro. Mas o processo de suspeição do ex-juiz ainda aguarda julgamento no STF

São Paulo – Um ano atrás, em 9 de julho de 2019, o enredo montado pelo então juiz Sergio Moro para mandar para a prisão o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, começava a ser desvendado. Com base em conversas trocadas entre procuradores do Ministério Público Federal (MPF) e Moro, o The Intercept Brasil, com série chamada de Vaza Jato, começou a revelar entranhas da República de Curitiba.

O objetivo do conluio – sob um pretexto de combate à corrupção – entre Moro e os procuradores ficou demonstrado: tirar Lula da disputa eleitoral de 2018. E evitar a volta do PT ao governo federal, após o golpe do impeachment que derrubou a ex-presidenta Dilma Rousseff.

Em muitos dos 99 capítulos da Vaza Jato as conversas entre Moro e integrantes do MPF, inclusive o coordenador da força tarefa, Deltan Dallagnol, surgiram evidências de que o ex- juiz agia como chefe da acusação. Fora dos autos do processo, sugeria testemunhas, avaliava provas e selecionava até mesmo os procuradores que deveriam participar das audiências.

Sentindo-se protegidos pela confidencialidade das mensagens pelos aplicativos, como o Telegram, Moro e os procuradores mostraram falta de escrúpulos para perseguir seus objetivos. De interesse público, a série Vaza Jato é dos episódios mais marcantes do jornalismo brasileiro dos últimos anos.

Até o momento, nenhum envolvido na trama foi punido. A defesa de Lula espera que o Supremo Tribunal Federal (STF) julgue o processo que pede a anulação da condenação do ex-presidente com base na suspeição de Moro, que comprovadamente não tinha isenção necessária para julgá-lo.


Comitê Lula Livre, criado para articular batalha política pela liberdade do ex-presidente, compilou trechos das conversas e acusa: “Bandido era o juiz”


Delta

O procurador Deltan Dallagnol – ou “Delta”, como era chamado pelo colegas – atuava como uma espécie de estagiário de Moro, cumprindo as tarefas por ele determinadas. Fazia tráfico de influência com as esferas superiores da Justiça, mantendo contato com desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) e até mesmo com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Era Deltan também quem fazia o meio de campo entre a Lava Jato e a imprensa aliada, que celebrava os procuradores como paladinos da moralidade, enquanto esses, assim como o juiz responsável pela 13ª Vara Federal de Curitiba, cometiam uma série de crimes. Ele foi alvo de dezenas de representações junto ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Um ano depois, os processos que poderiam resultar em punição ao procurador não avançaram, na maioria dos casos.

O então juiz, que se arvorava a condição de especialista na Operação Mãos Limpas, que buscou desbaratar a máfia italiana na década de 1980, já havia apontado a importância de conquistar o apoio da opinião pública. Com vazamentos seletivos, sem o devido direito de defesa, jornais, revistas, sites, blogs e emissoras promoviam as condenações prévias. Moro, depois, usaria o martelo da Justiça para selar as sentenças.

O resultado concreto foi a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, ex-militar, deputado do chamado baixo clero com sucessivos mandatos medíocres. Mas com discurso inflamado, de conteúdo operado cirurgicamente pelos algoritmos e pelo uso irregular das redes sociais – assunto que também ainda espera julgamento. Desta vez no Tribunal Superior Eleitoral.

Como agradecimento aos serviços prestados, Moro foi escolhido “superministro“, ainda antes do resultado final da eleição, do governo que começava no ano seguinte.

Primeiras bombas

primeiro lote de conversas revelado pela Vaza Jato mostra que Deltan e os procuradores de Curitiba, que por anos afirmaram não ter motivações políticas ou partidárias, agiram para inviabilizar uma entrevista do ex-presidente Lula da Silva à colunista da Folha de S.Paulo Mônica Bergamo, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski porque, em suas palavras, ela “pode eleger o Haddad” ou permitir a “volta do PT” ao poder.

A possibilidade de Lula falar, duas semanas antes do primeiro turno das eleições, provocou pânico e revolta nos procuradores. “Revoltante!!! Lá vai o cara fazer palanque na cadeia”, exclamou a procuradora Laura Tesler. “Mafiosos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”, respondeu a colega Isabel Groba.

No mesmo dia, o ministro do STF Luiz Fux concedeu uma liminar contra a publicação da entrevista, atendendo ao pedido do Partido Novo. A censura foi comemorada pelos procuradores. Mais à frente, a Vaza Jato revelaria que Deltan manteve contatos com Fux para angariar apoio para o conluio montado. “In Fux we Trust“, respondeu Moro, após ser comunicado das conversas por Dental.

Outra matéria publicada pelo Intecept, na tarde do domingo, 9 de junho, mostrava que Dallagnol, a quatro dias de apresentar o famoso powerpoint apontando Lula como chefe de organização à prisão tinha dúvidas sobre a solidez da história que contaria a Moro.

“Até agora tenho receio da ligação entre petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram to com receio da história do apto… São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua”, digitou o procurador em conversa no grupo batizado de Incendiários ROJ.

Showzinho da defesa

As conversas reveladas também mostram Moro sugerindo inverter a ordem de operações a serem realizadas pela PF. “Não é muito tempo sem operação?”, chegou a questionar o ex-ministro. O calendário das ações também teria servido para desviar a atenção da opinião pública sobre o vazamento de conversa do então presidente Michel Temer com o empresário Joesley Batista, da JBS, para comprar o silêncio do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha. “Tem que manter isso, viu”, era a frase de Temer que repercutia por todo o país.

São inúmeros os casos que demonstração como Moro atuava como chefe da acusação. Ele sugere, por exemplo ao procurador Carlos Fernando dos Santos Lima que emitisse nota para contraditar os pontos apresentados pela defesa de Lula. “A defesa já fez o showzinho dela”, disse o juiz à época.

Não ‘melindrar’ aliados’

Ao mesmo tempo que levava a cabo a perseguição judicial contra Lula, Moro se preocupava em “melindra alguém cujo apoio é importante”. A frase fazia referência a investigações que poderiam atingir o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele procurou Deltan para saber se as denúncias contra o tucano eram realmente “sérias”. O procurador disse acreditar que o processo tinha ido adiante, no MPF de São Paulo para talvez “passar recado de imparcialidade”.

Inquisição

Outra reportagem escrita pelo jornalista Glenn Greenwald, demonstrou que até mesmo os promotores de Lava Jato sabiam e reclamavam das transgressões éticas de Moro. “Moro viola sempre o sistema acusatório e é tolerado por seus resultados”, disse a procuradora Monique Chequer. Ela também afirmou que o juiz era “inquisitivo“, e só mandava ao MPF denúncias que corroboravam com suas próprias teses. “Cara, eu não confio no Moro não”, comentou o procurador Angelo Goulart Villela.

Grampos

A Vaja Jato também mostrou que Moro escondeu gravações de conversas telefônicas grampeadas de Lula. Elas contrariavam a tese de que o ex-presidente pretendia obstruir as investigações contra ele quando decidiu assumir o cargo de ministro-chefe da Casa Civil de Dilma. Os diálogos que não vieram a público mostram Lula muito mais preocupado em preservar o governo. Sequer a divulgação das conversar teria obedecido um “padrão” adotado pela Lava Jato, como alegava o juiz.

Outras infrações

As matérias publicadas pelo The Intercept Brasil, e também em parceria com outros veículos de imprensa, mostram, ainda, uma série de abusos e contradições. Por exemplo, revela que os procuradores eram favoráveis que os jornalistas publicassem informações obtidas por vias consideradas ilegais. Depois de serem alvo dos vazamentos, passaram a criminalizar as publicações.

Expuseram também como Deltan utilizou a Lava Jato para enriquecer com livros e palestras. Que o procurador pediu, e Moro topou, utilizar recursos do TRF4 para bancar campanhas publicitárias em apoio à República de Curitiba. E tramaram, inclusive, o vazamento de delação para interferir na política da Venezuela, por sugestão de Moro.

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