Em delação recusada, Cunha admitiu financiar deputados para chegar à presidência da Câmara
26/12/2019 13:33 em Política

Apoio "comprado" teria sido decisivo para derrubar Dilma. Ex-deputado citou 120 políticos e arrecadação milionária. Relato foi rejeitado por procuradores, que a acharam "superficial"

São Paulo – Segundo reportagem publicada nesta quinta-feira (26) pelo jornal Folha de S.Paulo, em parceria com o portal The Intercept Brasil, o ex-deputado federal Eduardo Cunha (MDB-RJ) admite que financiou, em 2014, a campanha de 60 candidatos a deputado e, com isso, obteve o apoio que precisava para ser eleito presidente da Câmara no período que coincide com o segundo mandato de Dilma Rousseff (PT) e levar adiante o processo de impeachment contra a presidenta, em 2016. O relato é parte de uma proposta de delação premiada feita por Cunha a um grupo de procuradores da Operação Lava Jato, que a rejeitaram alegando que o conteúdo era “superficial demais”

Além de ter distribuído cerca de R$ 140 milhões aos 60 deputados, Cunha teria citado outros políticos e um total arrecadado de R$ 270 milhões, entre doações oficiais e caixa 2 (equivalente a cerca de 70% da verba). Ele afirma em seu relatório que o dinheiro vinha de grandes empresas, como JBS, bancos privados, Odebrecht, montadoras, empresas de ônibus e outras companhias interessadas na sua influência no parlamento.

“Cunha entregou sua proposta de delação a procuradores em meados de 2017, mas seus relatos foram considerados pelos investigadores superficiais demais, e não houve acordo”, afirma a Folha. O grupo de procuradores que rejeitou a delação inclui membros do MP Federal no Paraná, Distrito Federal, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte, e da Procuradoria-Geral da República.

Na delação, Cunha ainda afirmou que cresceu na política quando passou a atuar para o grupo de Garotinho, no Rio de Janeiro. E que conseguiu “crédito ilimitado” com Joesley Batista, da JBS, porque teria convencido Michel Temer a nomear Henrique Meirelles para o Ministério da Fazenda, após o impeachment.

A reportagem não divulgou diálogos dos procuradores, limitando-se a lembrar de reportagem anterior que o então juiz de primeira instância Sergio Moro mandou mensagem para o coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, deixando claro que “era contra” a delação de Cunha e que esperava que as notícias sobre a negociação com o Ministério Público não passassem de “rumores”.

A delação do ex-deputado faz também menções ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Cunha diz que Maia foi beneficiário de R$ 300 mil repassados pelo empresário Natalino Bertin a Moreira Franco, em 2010, em contrapartida a um financiamento obtido no governo federal. Os citados na delação afirmam que Cunha mente e implica adversários políticos por ressentimento.

Cunha está preso e foi condenado em ações penais em Curitiba e Brasília.

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