Glenn Gleenwald: existe corrupção também em atos de juízes, procuradores e da mídia
09/10/2019 09:08 em Política

"Tem corrupção quando jornalistas publicam algo sem se importar se é verdade, para agradar sua fontes ou destruir a reputação de que consideram adversários", diz diretor do "Intercept"

São Paulo –O que mudou se, apesar da gravidade das revelações da Vaza Jato, por meio das reportagens do The Intercept Brasil e outros veículos, o ex-juiz Sergio Moro continua incólume no cargo de ministro da Justiça, o procurador Deltan Dallagnol se mantém como coordenador da Lava Jato e Lula, além de muitas outras pessoas alvos de abusos e ilegalidades cometidos em seus processo, continuam na prisão? O jornalista Glenn Greenwald, criador do site, comentou que essa tem sido a questão mais frequente que tem ouvido recentemente, quatro meses após o início das revelações do Intercept sobre atos de corrupção de autoridades antes blindadas pela mídia.

Em debate realizado durante a Semana de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Glenn comparou a situação brasileira com a que viveu ao revelar a espionagem e vigilância em massa revelada em 2013 por Edward Snowden, ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA, na sigla em inglês).

“Ouvi essa pergunta (depois de fazer as revelações de Snowden). A NSA continuava espionando. Mas tudo mudou com aquela reportagem. Pessoas passaram a pensar diferente sobre privacidade, abuso de poder, e milhões de pessoas hoje usam criptografia, deixando a espionagem mais difícil. Um ano atrás todo mundo tinha medo do Sergio Moro. Ele era super-herói. Ninguém queria desafiar. Agora, ele tem este ‘tamanhinho’ (faz gesto com os dedos), muito pequeno, fraco. O pacote anticrime sofre uma derrota sobre outra no Congresso”, disse.

Ele comentou que, no Brasil, “a palavra corrupção tem um significado um pouco estreito”. No país, ela é utilizada apenas para caracterizar membros do Congresso Nacional e ministros de Estado que recebem propina. Segundo ele, corrupção é algo “muito mais amplo do que isso”.

“Obviamente um ministro, um deputado, um senador recebendo propina é corrupção. Mas não é só isso. Por exemplo, tem corrupção jornalística quando jornalistas publicam informação sem se importar se essa  informação é verdade, para agradar suas fontes, ou para destruir reputações das pessoas que consideram seus adversários.”

Também existe corrupção dentro do Ministério Público e do Judiciário, pontuou, mas não necessariamente por recebimento de propina. “Mas, por exemplo, um juiz fingindo ser neutro, quando está condenando acusados por muito anos à prisão e, ao mesmo tempo, conspirando com promotores em segredo e negando publicamente que estava fazendo isso. Isso é uma forma de corrupção muito grave.”

Outra forma de corrupção, na opinião de Glenn Greenwald, se configura quando agentes do Estado, procuradores e membros de órgãos como Receita Federal, com poderes de invadir a vida dos cidadãos, usam esse poder “para vazar ilegalmente informações que tinham  obrigação legal de manter em sigilo, com o objetivo de destruir a reputação de pessoas que também consideram seus inimigos”.

“Os furos mais bombásticos na mídia brasileira nos últimos cinco anos, talvez a maioria, são baseados nos vazamentos criminosos feitos pelo Ministério Público e Polícia Federal. As pessoas abusando de seu poder na PF, no MP, vazando informação que a lei diz que deve ficar sob sigilo, são criminosos, e nunca são investigados”, disse. “O que justifica a diferença de tratamento dado a ‘criminosos’ (faz gesto de aspas com os dedos) que estão hackeando e criminosos que estão trabalhando dentro da Polícia Federal, do Ministério Público e da força tarefa da Lava Jato?”

O jornalista norte-americano radicado no Brasil também acredita que os meios de comunicação estão avaliando, menos a Globo, a maneira como fizeram jornalismo na cobertura na Lava Jato. “(Agora) Temos um debate sobre o fato de que não se pode lutar contra corrupção com pessoas (que usam) métodos corruptos. Estamos revelando e limpando a corrupção que estava dentro da força-tarefa. Isso é o propósito do jornalismo.”

Segundo Glenn, as controvérsias sobre as revelações dos métodos de Moro, Dallagnol e colegas da Lava Jato mostraram que a cultura do jornalismo feito pelo Intercept ainda não existe no Brasil, ao contrário de Canadá, Europa e, principalmente, Estados Unidos.

“Isso no Brasil não é aceitável ainda. Percebi isso quando Moro foi ao Congresso e usou as palavras para criminalizar (o trabalho do Intercept). Durante oito horas não se referiu a nós como jornalistas, mas como criminosos, aliados dos hackers. E o próprio Bolsonaro usou meu nome para dizer que eu deveria ser preso.” Em 27 de julho, o presidente Jair Bolsonaro afirmou sobre Glenn Greenwald: “Talvez pegue uma cana no Brasil”.

Participaram do debate os jornalistas Leonardo Sakamoto, diretor da Repórter Brasil, Sérgio Dávila, diretor de redação da Folha de S. Paulo, e Carla Jiménez, diretora do El País Brasil.

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